terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Bilhete

TAVINHO,

OBRIGADA PELA SUA AMIZADE DESSES DOIS ANOS E MEIO. DECIDI QUE É MELHOR ASSIM, IR EMBORA, SEM UMA DESPEDIDA OLHO NO OLHO. NÃO SOU BOA COM DESPEDIDAS. PELO MENOS NÃO COM AS PESSOAS QUE GOSTO.

OBRIGADA PELA AJUDA COM AS MATÉRIAS TODAS: MATEMÁTICA, FÍSICA, QUÍMICA, ISSO NÃO É PRA MIM, TALVEZ NUMA PRÓXIMA VIDA EU ENTENDA ISSO. MAS, OBRIGADO POR TENTAR MESMO ASSIM. CONFESSO QUE O ABISMO QUE ME SEPARA DESSAS DISCIPLINAS DIMINUIU UNS DOIS CENTÍMETROS COM O SEU TRABALHO. :)

FALANDO SÉRIO, OBRIGADA POR TUDO. PELOS ABRAÇOS INESPERADOS. PELAS MORDIDAS NO PESCOÇO, NÃO TANTO PELAS MARCAS, MAS SIM PELO INUSITADO. PELOS CHOCOLATES, AS DISCUSSÕES SOBRE FILMES, SERIADOS.

OBRIGADA PELO APOIO NAS HORAS DIFÍCEIS. POR ENTENDER QUANDO PRECISAVA DE SILÊNCIO, E QUANDO PRECISAVA DE AGITAÇÃO. E POR SER O OPOSTO DE TUDO ISSO, POR ME TRAZER SANIDADE, OU POR ME DEIXAR LOUCA.

DE FATO MINHA VIDA MUDOU. OS CIGARROS PERDERAM A GRAÇA, OS FILMES DE TERROR NÃO INTERESSAM MAIS. PASSEI A SIMPATIZAR COM O TEATRO, A FILOSOFIA, ANDAR NA CHUVA, PEGAR A BIKE E SAIR SEM RUMO DEFINIDO.

OBRIGADA POR MOSTRAR QUE A VIDA NÃO PRECISA TER UM RUMO DEFINIDO, QUE EU POSSO SER QUEM EU QUERO, INDEPENDENTE DE TER ALGUÉM OLHANDO. QUE AS CRÍTICAS SÃO DOS OUTROS E DOS VALORES MORAIS DOS OUTROS. EU NÃO TENHO NADA A VER COM ISSO. CADA UM CUIDE DE SI. OBRIGADA, OBRIGADA, OBRIGADA.

BEM, ESTOU CUIDANDO DE MIM TAVINHO. DE VERDADE. E POR ISSO PRECISO PARTIR. NÃO É NADA CONTRA VOCÊ. NADA PESSOAL. DESEJO SINCERAMENTE SOMENTE COISAS BOAS PRA TI. SEMPRE LEMBRAREI DE NOSSO TEMPO JUNTOS. ALIÁS, PODEREMOS NOS FALAR. SENTIREI FALTA DA SUA VOZ E DO SEU JEITO ENGRAÇADO E CERTAMENTE CONVERSAREMOS.

PRECISO IR. SE PENSAR DEMAIS NÃO IREI EMBORA.

ESTOU SAINDO DA SUA VIDA, MAS LEVO VOCÊ COMIGO.

BEIJOS TAVINHO

CRIS

Sem demora

Ela chegou. De mansinho. Calmamente, os passos calculados.
Olhou para o seu alvo. O caminhar era lento, quase insipiente, como se desistisse de continuar caminhando, como se houvesse um receio dentro dela, como se estivesse em dúvida.

Mesmo assim prosseguia no seu intento. Adorava fazer isso na verdade. Deixar os observadores de plantão se questionando sobre o propósito de tudo aquilo.

Era quase um show particular.

Assim, de repente, estacou. A aparente indecisão deu uma guinada para uma decisão resoluta!

Observava o seu alvo. E era observada ao mesmo tempo.

Depois de um tempo (minutos? horas?) desistiu da empreitada.

Sua dona havia enchido o potinho de ração.

O rato viveria mais um dia.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Ficção versus Realidade

- Clarêncio.
- O que é mãe?
- Saia da frente da TV. Faça algo lá fora. O mundo não está dentro desse aparelho.
- Mas eu gosto da TV, do que ela mostra, dos sons, das imagens, do colorido.
- O mundo é tão colorido quanto essa TV.
- Ah mãe, só mais um pouco!
- Não. chega.

DESLIGOU A TV.

- Vai ficar aí emburrado?
- Ora, vou sim! A menos que...
- A menos que o quê?
- Que você me mostre o mundo colorido! Você não disse que ele é melhor?
- Oh céus! Está bem. Hoje de tarde sairemos e vou lhe mostrar o mundo.
- Tão colorido quanto a TV?
- Tão colorido quanto a TV!

SAÍRAM DE CASA NAQUELA TARDE. NUNCA MAIS VOLTARAM. A MÃE LARGOU O EMPREGO E SE MUDOU COM O FILHO PARA OUTRO PAÍS, OU MELHOR, VIAJARAM DE PAÍS EM PAÍS, CONHECENDO A BELEZA E A NATUREZA DE CADA REGIÃO, TENDO VIVÊNCIAS ÚNICAS.

O FILHO NUNCA MAIS LIGOU UMA TV.

Luz



Surgiu a Luz
Iluminando e dissipando as sombras
A escuridão não suportou os primeiros raios
Desaparecendo por completo

Veio a Luz 
Abrindo os olhos da criança 
que habitava no corpo do adulto

Alimentando a esperança 
Mitigando a fome
Dissolvendo a ignorância

Luz
Lux
Light 
Licht
Muitos nomes
O mesmo significado

Veio a Luz
Clareando a consciência

Não irá embora
Porque a consciência está desperta

Abrigo a Luz
Acolho com minhas mãos, olfato, visão e os demais sentidos
Ela faz parte de mim
Eu sou Luz

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O Tempero

- Que delícia de comida. Você está de parabéns. 

- Obrigada. 

- Qual o segredo? 

- Segredo? Não há. São anos de prática fazendo uma comidinha gostosa para minha família. 

- Hã, é mesmo? 

- Sim. O que houve? 

- Sua resposta foi meio pronta, assim, na ponta da língua. Aposto que você fala isso para todos. 

- Hum. Entendo. Você quer uma resposta sincera, elaborada? 

- Sim, de preferência. 

(Um momento de silêncio). 

- Muito bem. Lá vai. Na realidade eu sofro bastante. Com as constantes brigas aqui em casa. Fico triste de não conseguir apaziguar os ânimos exaltados aqui em casa. Na maioria das vezes não é comigo, mas eu sinto os golpes. Então fazer comida é uma forma para me distrair um pouco. Imagino, ao preparar uma refeição, que dias melhores virão aqui nessa casa. E assim vou preparando e a comida vai dando certo. Por vezes choro enquanto cozinho. É até possível que o sal de alguns dos meus pratos foi fornecido pelas minhas lágrimas. 

- Nossa... não imaginava...

- O que achou de minha resposta. Ficou do seu agrado? Foi elaborada e sincera o suficiente para o seu gosto? 

- F-foi. 

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Ideia Fixa

Eduardo estava inquieto, um pouco além do habitual. Quem o observasse perceberia uma palidez em seu rosto, e também um suor na face e nos braços. Mas o observador poderia atribuir essas características ao calor sufocante daquela tarde.

Ninguém o observava, portanto. Eduardo estava a sós com ele mesmo, com os seus pensamentos martelando sua mente e fustigando a razão.

Uma ideia borbulhava em sua mente, quase como uma obsessão - ou seria uma obsessão já nessa altura? - e o impossibilitava de fazer ações simples como se alimentar ou sair da frente do computador.

Pesquisava videos pela internet, entrava em blogs, em periódicos eletrônicos, fóruns de discussão e outros meios que conseguisse encontrar para se informar.

Penhascos. Isso mesmo, penhascos. Essa era a ideia fixa que o fazia suar abundantemente e ter a cor da pele parecida com uma xícara de porcelana branca.

Após buscas demoradas pela internet, fazendo-o gastar horas na frente da tela, descobriu um penhasco do seu agrado.

Para sua sorte era ali perto. Exceto que o "perto" estava a 30 km de distância. Mas, para quem dispõe de um carro para se deslocar e um tanque cheio, não seria problema.

Saiu de casa. A obsessão assim permitiu que ele o fizesse. E foi em busca de seu penhasco. Levou lanternas, um lanche, uma corda, uma máquina fotográfica.

Ao chegar ao local, divisou o penhasco ainda com o auxílio da claridade, que emitia seus últimos raios, denunciando a chegada da noite.

Eduardo parou e observou. O penhasco era relativamente alto, e demandaria um esforço e também algum conhecimento do terreno. Nunca esteve ali antes.

bateu algumas fotos, aproveitando os últimos resquícios de luz. Sentou, comeu o lanche sem perder de vista o penhasco.

Quando finalmente a noite cobriu com o seu manto tudo ao derredor, ligou a lanterna e apontou-a ao penhasco. A falta de luz natural não o impediria de observá-lo.

Após umas duas ou três horas, enfim deu conta de si e pareceu despertar de um entorpecimento que o manteve sentado até aquele momento. Suas pernas formigavam.

Levantou-se. Olhou uma última vez para o penhasco.

Empreendeu o caminho de volta para sua casa.

Tomou um banho, fez mais um lanche e deitou.

No dia seguinte e em todos os outros dias nunca mais pensou naquele penhasco. As imagens tiradas com a máquina fotográfica as deletou sem olhar.

Eduardo estava pronto para a próxima obsessão.

FIM

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Exercício de escrita

- Desça daí.

- Não. Não quero.

- Mas que coisa. Agora cismou de ficar aí em cima.

- Aqui é melhor.

- O que tanto você faz aí?

- Olho os pássaros, já falei mil vezes.

- Você pode olhar daqui de baixo, sem arriscar quebrar o pescoço!

- Não é a mesma coisa. Poxa, você não me entende!

- Não entendo mesmo. E nem o seu pai. Se você não me obedece, vai obedecê-lo.

- Quando ele chega?

- Ficou com medo agora?

- Quando ele chega?

- é só o tempo dele voltar da padaria. Questão de uns quinze minutos.

SILÊNCIO.

- Desça já daí antes que o seu pai chegue, é o último aviso!

- Me faz um favor?

- O que?

- É. Um favor. Quando ele chegar, pede pra ele vir aqui em cima, que eu consegui ver aquele pássaro azulado que ele tanto queria ver.

...
...
...

- Você e o seu pai estão metidos nessa história juntos?